24 de setembro de 2009

Wedding Coaching

Nossa, faz tempo que não escrevo..., mas, como mencionei no meu primeiro post, o processo criativo é assim mesmo e é importante respeitá-lo.

O assunto de hoje é bastante novo para mim e confesso que ainda está em fase gestacional, mas assim como na terapia temos um espaço para falar sobre nossas emoções e pensamentos para que sejam arejados e, quando nos escutarmos termos uma perspectiva diferente; vejo no blog um espaço análogo: no qual minhas idéias em incubação podem receber um pouco ar e mais concretude.

Bom, em minha apresentação menciono que sou especialista em questões amorosas, que escrevi em co-autoria um livro sobre o assunto enfim, chegou um momento de dividir um pouco desta minha experiência nesse espaço.

O tema em questão refere-se a "Wedding Coaching", termo que surgiu inocentemente numa conversa com amigos e, que particularmente gostei e resolvi adotar. O que ele quer dizer afinal?

Quem já casou e vivenciou os preparativos do casamento, seja com a festa (que pode ser da mais simples, a mais elaborada), com o montar a casa (entrega do imóvel, reformas, lidar com pedreiros, entrega de móveis...), entende como esse momento é tão delicioso e maravilhoso, assim como é detonador de muitas crises, discussões e desentendimentos também.

Foi pensando nisso que Wedding Coaching começou a ser gestado. Tendo vivenciado tudo isso e acompanhado pessoas próximas que estavam passando por esse processo, comecei a pensar e a começar desenvolver uma metodologia para assessorar casais nessa fase tão maravilhosa, ao mesmo tempo que tensa. E é justamente essa reflexão e metodologia, que venho desenvolvendo e aprimorando, que nomeei de "Wedding Coaching".

Sem ter a pretensão comecei a acompanhar, acolher e orientar pessoas próximas e queridas que estavam experienciando o processo do casar-se, deparando-se com problemas como: qual Buffet contratar, cor da decoração, quem vai ficar responsável por o quê, e todas as discussões que os acompanham... Daí então pensei: poxa, se tenho facilidade em acolher, orientar, problematizar escolhas (que nada mais é do característica da minha profissão), porquê fazer isso apenas com pessoas próximas? Por que não estender isso como uma área de atuação em meu trabalho? Como sempre repito, a visão da psicologia analítica é prospectiva: em tudo há um para quê, uma finalidade. Portanto, resolvi retomar as origens de minha formação e acolher esse chamado: trabalhar com esse tipo de orientação.

Tenho percebido que a maneira como o casal administra as crises e conflitos característicos da fase dos preparativos, pode ser um fator importante sobre a vida do casal de forma geral. Se o casal consegue administrá-las de forma consciente e adulta, reconhecendo e legitimando a alteridade, a fase seguinte, "recém-casados", que também tem suas crises e conflitos característicos, pode ser encarada de forma mais leve, uma vez que recursos de como enfrentá-los, já terão sido internalizados. Assim como as que virão a seguir.


Como é uma proposta nova, pelo menos para mim (apesar de que fiz uma busca no Google com esse termo e não encontrei nada aqui no Brasil, tão direto e específico assim) fiquei relutante em assumí-la, mas acho que o momento chegou e por isso optei por postar em meu blog, para que assim este projeto possa nascer e ganhar vida própria, sendo um recurso que pode ser visitado e conhecido por um público maior e não tão restrito. Enfim, acho que o Wedding Coaching está entrando em trabalho de parto, prestes a nascer e esse post, representa a primeira contração...



Lilian Loureiro

5 de agosto de 2009

Os desafios da comunicação...


Hoje, meu almoço foi um tanto quanto filosófico, eu diria... No finalzinho dele ocorreu um acontecimento que me fez refletir acerca da importância da comunicação nos relacionamentos interpessoais.

“Comunicação” pode ser entendida como a relação entre o interlocutor, que emiti uma mensagem e o receptor, que a recebe. A relação pode parecer simples, mas está longe de ser. Receber a informação corretamente, não é tarefa simples, eu diria que é extremamente complexa. O primeiro complicador disso, a meu ver, é a língua. Por mais parecido que seja para um leigo, um chinês não vai entender um japonês se não souber japonês e vice-versa.

Quem nunca cometeu uma gafe com os famosos “false friend”, tanto no inglês quanto no espanhol, ao adotar uma palavra semelhante do português, achando que está abafando... Ou mesmo com o português de Portugal. O pedido de simples pãozinho de um português para um brasileiro, pode gerar muita confusão...

Isso porque, infelizmente, em grande parte das vezes não ouvimos o que o outro tem a nos dizer de fato. No caso da língua, precisamos aprender a língua falada pelo interlocutor, para poder compreender fidedignamente. É como se diante de uma mensagem desconhecida, nosso receptor editasse a informação a partir do referencial que temos, de forma que nossa compreensão fica distorcida: não ouvimos o que a pessoa de fato fala, mas o que podemos ouvir naquele momento. No caso do pão, o pedido por ser ouvido como uma tremenda ofensa.

Esse mesmo descompasso entre diferentes línguas faladas acontece com pessoas que falam a mesma língua. Pois é, quem nunca vivenciou uma situação constrangedora na qual não ouviu de fato o que outro falou, mas uma coisa complemente diferente? Aquela brincadeira de criança, o “telefone sem fio” ilustra bem o que estou tentando falar: a história começa com avião e termina com navio. A mensagem, ao passar de ouvido em ouvido vai sendo distorcida e cada uma vai compreendendo do jeito que pode e dificilmente chega no último, como de fato começou.

Acho que minha reflexão está filosófica de mais, deixe-me ilustrar com meu almoço para ficar mais fácil de entender. Fui almoçar em um restaurante japonês com uma amiga. Quando estava terminando a sobremesa o garçom veio perguntar se queríamos um café ou um banchá. Naquele instante achei que estava ouvindo uma coisa absurda: “estou terminando minha sobremesa e o cara vem oferecer aquela sopinha...” No momento em que ouvi, meu digníssimo cérebro processou “banchá”, que é o famoso chá verde, digestivo, ótimo após a refeição, com o missoshiro, que daí sim é a sopinha. Assim que o garçom ofereceu, a imagem que se formou em minha mente foi do potinho de sopa. Na hora, cai na tentação de julgar o garçom como um louco sem noção, que alias estava fazendo seu trabalho muito bem feito, simplesmente porque tinha ouvido errado o que ele havia oferecido. A única louca sem noção nessa história: eu. Logo caí em mim, graças a deus alias, pois se tivesse falado o que havia pensado, seria uma gafe daquelas... rs

Tirando o mico da experiência, acho que ilustra muito bem o que tentei explicar com “confusões” geradas pela forma como nos comunicamos. É um exemplo bobo, mas nos remete a pensar em tantas outras ocasiões, nas quais não conseguimos ouvir o que de fato o outro tem a nos dizer.

Nas relações de trabalho isso é extremamente comum. Já perdi as contas do número de vezes que ouvi pacientes se queixando do chefe porque fez a tarefa, mas não ficou do jeito que ele queria. Exemplo: o chefe pede que se “faça um relatório”; a pessoa ouve e a imagem que se processa em sua mente é de um lindo gráfico, condensando todas aquelas informações de forma colorida, o que a pessoa faz. Daí, ela vai feliz e contente apresentar o resultado de seu trabalho ao chefe, que dá um esporro danado por que não foi aquilo que pediu... O que acaba por gerar desconfortos, incompreensão e mal entendidos.

Por isso a importância de alinhar as expectativas: o que o funcionário entende por relatório, pode ser completamente diferente da compreensão do chefe. Portanto, para beneficio de ambos, vale a pena checar. Falar a mesma “língua” é bastante indicado nesse caso.

Nunca canso de dizer: sempre que ouvir algo, cheque se compreendeu corretamente, não a partir do próprio referencial, mas sim do referencial do interlocutor: “me vê um pãozinho no português de Portugal”, ouvido corretamente, só quer dizer “me vê um pãozinho” ... Alinhe a informação que recebeu com quem a falou. Exercício como esse pode ser surpreendente. É melhor pecar pela checagem do que correr o risco de entender completamente errado e precisar passar por um mico tremendo, ou ter que fazer a mesma coisa mais de uma vez. Enfim, exemplos, são inúmeros...


Lilian Loureiro

3 de agosto de 2009

Afinal o que é Método Birkman?

No post anterior falei como minha relação com o Método Birkman ocorreu, mas fica a pergunta: o que é afinal o Método Birkman?

Acho que a melhor maneira de defini-lo é falando um pouco sobre seu criador. Foi Roger Birkman, Ph. D em psicologia, ex-piloto de bombardeiro na II Guerra Mundial quem o desenvolveu. Enquanto lutava pelas forças armadas norte America observava episódios recorrentes que o intrigava: o testemunho de momentos em que seus companheiros, diante de uma forte tensão, desperdiçavam munições valiosas nos alvos que percebiam que estavam lá, quando não estavam.

Vivenciando isso, Roger identificou sua fonte de interesse no comportamento humano: a percepção. Desde então, tem tentado identificar, analisar e aprender como eliminar muitos outros tipos de problemas de percepção, afinal disperdiçar munições em alvos que não existem, significa poder não dispor no momento necessário.

O método Birkman foi criado na década de 40, pós II Guerra Mundial e vem sendo aperfeiçoado e aprimorado desde então. A primeira versão do instrumento chamava-se “Teste da compreensão social”, que foi aperfeiçoada em 1951 na tese de doutorado de Birkman. Hoje o instrumento está muito mais refinado e apurado. Foi desenvolvido todo um sistema de informática capaz de gerar o relatório, após o questionário ser respondido em minutos. Testes-retestes, fidedignidade, validação são constantemente realizados, através do banco de dados de mais de 50 anos. A título de curiosidade: o método já passou por sete revisões.

Desde os primórdios, Birkman estava convencido de que poderia criar um instrumento muito necessário, capaz de medir: Expectativas sociais, Auto-conceitos, Interesses, Comportamentos Sob Tensão, Comportamento usual, tudo isso através de uma única ferramenta de avaliação. E foi o que de fato conseguiu. O Birkman Method® avalia comportamentos no ambiente de trabalho a partir da análise de:
– Necessidades subjacentes
– Motivações
– Comportamentos sob tensão
– Orientação organizacional

Desta forma, o Método Birkman constitui-se como um instrumento de grande valor, tanto para organizações como indivíduos. A experiência do instrumento com empresas mostra que um problema entendido por uma pessoa, pode não ser um problema entendido por todos, como o exemplo que ilustrei no post anterior.

Possibilita aumentar os níveis de desempenho do indivíduo e da equipe e reduzir comportamentos de stress. As possibilidades de aplicação são inúmeras:
• Desenvolvimento da liderança.
• Seleção de profissionais.
• Coaching individual e de equipes.
• Orientação e transição de carreira.
• Formação e integração de equipes de trabalho.
• Gestão de talentos e da diversidade de estilos profissionais.
• Gerenciamento de conflitos e de estresse.
• Oferece informações valiosas para o desenvolvimento de competências e o aumento de desempenho.
• Facilita a tomada de decisão em seleção e contratação de profissionais.
• Apresenta indicadores fundamentais para planejar estratégias de retenção de talentos.
• Fornece subsídios para o planejamento e o desenvolvimento de carreiras.
• Integra diversas informações sobre aspectos relacionais e ocupacionais de forma inteligente em uma mesma ferramenta.
• Potencializa o sucesso do alinhamento organizacional.

O que Roger Birkman com tantos anos de pesquisa pode observar é que pessoas são elas mesmas quando estão relaxadas, mas comportam-se diferentemente quando experienciam tensão. É possível observar as ações de uma pessoa e determinar se ela está ou não constantemente estressada. Quando você identifica uma dada condição, você saberá como responder à pessoa de uma maneira que irá ajudá-la mais. Portanto, este instrumento ajudar a compreender porque as pessoas agem do jeito que agem. Essa simples habilidade facilitará insights não somente em relações interpessoais e interações no trabalho, melhor que isso, ajudará a compreender porque uma pessoa faz as coisas do jeito que faz, uma vez que seu propósito principal é avaliar a percepção para assim poder alterá-la. Por isso é um excelente recurso para auxiliar a pessoa a avaliar quão freqüentemente ocorram situações em que nossa percepção fica distorcida. Quando você percebe as coisas corretamente e faz uma suposição válida baseada em sua percepção correta, você pode ser otimista e cheio de esperança.

Enfim, espero ter contribuído para a apresentação deste instrumento tão especial.

Lilian Loureiro

21 de julho de 2009

Minha Trajetória com o Método Birkman


Em perfil, menciono que alem de psicóloga clínica, sou consultora em desenvolvimento humano e organizacional, responsável pela qualificação do método Birkman, pela Fellipelli. Como é instrumento ainda pouco conhecido, achei que seria interessante falar um pouco a seu respeito e como minha historia com ele aconteceu.

O Método Birkman é um valioso instrumento de autoconhecimento, muito utilizado em vários países para diferentes finalidades, principalmente na área empresarial. Minha relação com esse instrumento começou de maneira bastante inusitada: não fui eu quem fui atrás dele; foi esse instrumento que chegou a mim...

Em função do meu prazer em estudar, um amigo me convidou para mergulhar em um instrumento, adquirido pela empresa onde ele trabalhava na época, mas não desenvolvido ainda. Gostei do desafio e aceitei. Até então não havia tido contato algum com a área organizacional e empresarial. Confesso inclusive que era bastante receosa e preconceituosa a esse respeito. Contudo, estudando e me aprofundando nesse instrumento, minha opinião foi sendo reformulada. O potencial de atuação e transformação que este instrumento contém definitivamente me cativou.

Encontrei muitas dificuldades ao longo desse processo, até aquele momento (janeiro/2008) minha experiência era exclusivamente clínica. Nunca havia trabalhado em empresa, portanto era difícil entender, ou mesmo, aceitar os ditames coorporativos. Dentre as dificuldades encontradas, meu histórico com o meio cientifico e acadêmico atravancou o processo: enquanto não levantei material a respeito da história do instrumento, quem o desenvolveu, em que contexto, em que momento histórico, o estudo do instrumento não conseguia deslanchar... Minha percepção (posso estar redondamente enganada...) é que infelizmente no universo empresarial a profundidade do conhecimento não é muito almejada. O que é valorizado é a compreensão rápida e eficiente, o que provocou muita dificuldade em meu processo de estudo, de forma que minha preocupação não foi vista como um problema de fato. Foi trabalhoso, mas após muita busca na internet e levantamento de todo material disponível que a empresa dispunha finalmente consegui buscar tais informações. A partir daí, minha paixão pelo instrumento nasceu! Aos poucos fui constatando toda sua credibilidade cientifica com estudos recorrentes de validação e toda a seriedade com que os dados produzidos pelo questionário são trabalhados.

Somando-se a isso, minha experiência como sujeito do Método Birkman só reforçou o valor deste instrumento para mim. Através dele ficou clara minha dinâmica de funcionamento relacional e organizacional e assim, ficou mais fácil de entender meu bloqueio inicial de só conseguir me apropriar do instrumento, após levantar seu histórico cientifico. O método Birkman avalia várias dimensões do comportamento, dentre elas, as áreas de interesses do indivíduo. Uma das áreas mais expressivas no meu relatório é justamente a área científica, que tem como característica marcante o interesse pela compreensão de como as coisas funcionam, de onde vieram. Desta forma, pude perceber na pele o valor do Método Birkman para meu desenvolvimento pessoal e profissional. Pude perceber que minha busca não era mera implicância, como poderia soar, mas uma necessidade genuína minha para a apropriação de um novo conhecimento. Meus colegas de trabalho também puderam constatar isso, de forma que a relação de trabalho pode fluir com naturalidade e leveza e principalmente, com respeito pela diferença, que nesse caso teve muito a acrescentar.

Portanto, para mim, o Método Birkman não se restringe apenas ao universo organizacional, ele pode ser utilizado como um grande aliado no processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.

Sou muito grata à Adriana Fellipelli por ter confiado na indicação do meu amigo e ter apostado e investido em meu potencial cientifico e clínico e, mesmo sem ter qualquer experiência na área coorporativa, confiou e acreditou em minha contribuição para a implementação da qualificação do instrumento, que hoje faz parte de minha vida pessoal e profissional.
Lilian Loureiro

24 de junho de 2009

Em busca de uma expectativa ideal...

Semana passada, assisti pela segunda vez, a um filme muito especial, que suscitou muitas reflexões acerca do processo de individuação, assunto que comecei a discutir no post passado.

O filme em questão é “Meu melhor amigo”. Filme sensível, profundo, doído, ao mesmo tempo que alegre. Conta a historia de uma garotinha, abandonada pela mãe, que muda de cidade com o pai que é pastor.

Sentindo-se solitária no primeiro culto do pai, pede a Deus um amigo, pois as crianças da cidade da sua idade não dão muita atenção à ela.

Eis que seu pedido é atendido, mas diria, de um jeito nem um pouco convencional: um cachorro se apresenta em sua vida. A garota o salva de uma enorme confusão dentro de um supermercado.

Um lindo processo de amizade desenvolve-se entre eles. A garotinha compartilha suas emoções, seus medos, alegrias com o cão, que a escuta atentamente. Através da amizade entre eles a garota consegue se aproximar do pai, conversando mais com ele, principalmente a respeito de sua mãe.

Através da amizade com o cão, ela amplia seu leque de amizade, pois gradativamente o cãozinho a aproxima de todas as pessoas segregadas da cidade, que por suas peculiaridades, foram excluídas do convívio social.

A garotinha vai descobrindo e aprendendo de maneira mágica que a vida tem bons e maus momentos, assim como a bala, que tem um gosto doce com um toque de tristeza. Aprende também que olhar para ambos os aspectos com o mesmo carinho e atenção é muito importante.

Cada novo amigo que conhece tem algo a lhe ensinar. Ao ouvir suas histórias de conquista e perdas, cresce e aprende com eles. Seu grande aprendizado é justamente acolher os dois lados: triste X alegre; bonito X feio; cheiroso X fedido; bruxa X santa. Desta forma, a garota funciona como um elemento agregador da cidade, reaproximando as pessoas em suas tristezas e alegrias.

A garotinha ensina a todos a importância de olhar para dentro de si, para ambos os aspectos da alma e constata a importantíssima lição: para ter um amigo, é necessário saber ouvir. Faço um parênteses nessa parte e sugiro a leitura da crônica de Rubem Alves “A Escutatória”, que aborda essa questão.

Percebe o efeito transformador de ter ouvidos atentos às historias conta; assim como de ouvir atentamente as histórias dos outros, não apenas com seus ouvidos, mas com seu coração. Percebe como essa valiosa troca alimenta sua alma.

E assim, desse jeito inusitado, salvando um cão de uma enorme confusão, que tem seu pedido atendido: constrói uma linda e transformadora rede de amizade. O cãozinho é um presente na vida de todos, pois os salva da prisão de si mesmos. Acaba por ensinar a importante lição: respeito pela alteridade.

Apresentado o filme, apresento minhas reflexões. Acho que esse filme retrata magnificamente o processo de autoconhecimento (individuação). Reflete o confronto corajoso e heróico com as tristezas e alegrias da vida e, principalmente, sobre a importância da entrega em relacionamentos genuínos, nos quais as trocas são verdadeiras. Acredito que a mensagem que esse filme traz é o ensinamento de atendermos o chamado da vida e, de aceitarmos nosso pedido do jeito que ele se apresentar. Caso a garotinha estivesse apegada a um modelo de amigo ideal, com características especificas, não acataria o chamado de acolher um pobre cãozinho, metido em confusão. Não o acolhendo, perderia a oportunidade de desenvolver novas amizades e, acabaria de fato sem nenhum amigo.

Esse filme é uma excelente metáfora para olharmos para nossos pedidos e avaliarmos se não estamos sendo rígidos e exigentes demais, apegados a uma expectativa ideal e irreal e, se de repente, não estamos perdendo oportunidades valiosas de nos autoconhecermos...



Lilian Loureiro

17 de junho de 2009

O que é o processo de individuação?


Hoje, enquanto estava trabalhando, com a TV ligada (péssimo exemplo alias... rs) assisti mais uma vez a propaganda que tanto gosto da Fiat: a do novo Fiat Pálio 2010. Aquela em que um cara, senta-se a frente do juiz e pede para separar-se de sua alma, pois os caminhos que escolhem são muito diferentes. Enquanto seu ideal é comer comida natureba, sua alma insiste em comer cheeseburger... O final da propaganda mostra o real encontro do cara com sua alma, no momento em que vislumbram algo em comum: no caso, o palio.

Quem fez essa propaganda teve uma ótima sacada e muito provavelmente faz análise, ou acompanha alguém que faça. Afinal, ela retrata fidedignamente muitas situações, que todos nós vivenciamos dia-a-dia, entre o que queremos idealmente e o que podemos de fato. É uma propaganda muito boa e sempre a uso como exemplo com meus pacientes.

Ela retrata metaforicamente o que é o processo de individuação, que nada mais é do que nosso processo de autoconhecimento.

Segue a definição de individuação que usei em meu TCC:
(...) a psicologia analítica entende que o desenvolvimento psicológico se dá a partir da diferenciação progressiva do ego em relação ao Self e, este processo, chama-se individuação. Ele se dá a partir do processo dialético do ego com os conteúdos inconscientes e sua função é a integração de tais conteúdos, permitindo assim, que o sujeito vá se aproximando de sua verdadeira essência, para se tornar um ser individuado. O processo de individuação sempre esta presente, mas é na segunda metade da vida (metanóia) que ele se torna mais relevante. Durante a primeira metade da vida, o ego para se consolidar, vai se relacionando com o mundo e se diferenciando do Self; já na segunda metade, quando o ego já está consolidado, há um retorno ao Self, mas de uma maneira diferenciada, e é este novo confronto que se caracteriza como individuação. (Loureiro, 2003, p. 12)

É muito comum traçarmos uma meta, um caminho de vida, tipo quando crescer quero ser advogada, professora, veterinária, entre muitos outros exemplos. Muitas vezes por mais que nos esforcemos, não conseguimos concretizar o sonho, como o idealizamos. É como se uma força, contraria à nossa vontade nos impulsionasse por outros caminhos. Às vezes, quanto mais tentamos brigar com essa força, mais ela se faz presente, mostrando quão capaz ela é. Acabamos ficando irritados, frustrados e teimosos, até que não conseguimos mais lutar contra a maré e nos entregamos a ela... Daí é muito comum acontecer algo, que muitas pessoas julgam como mágico: depois que desistem de lutar e aceitam o chamado da vida, muitos dos projetos iniciais se desenvolvem, mas não conforme haviam sido planejados, mas de uma maneira inédita e muitas vezes até melhor. Ao invés de lutar contra a onda, aprendem a usá-las a seu favor, como quando pegamos “jacaré”...

É como a propaganda retrata: quando a cara desencana de brigar com sua alma e resolve sair de casa, percebe que têm algo em comum com ela: o gosto pelo carro. No exemplo acima, é como se a pessoa, depois de sofrer muito no processo de decisão por uma das profissões almejadas na infância, se formasse em direito e, ao longo da vida, percebesse que alem de exercer a profissão, acaba defendendo a causa dos animais, por exemplo (amparando seu amor pela veterinária), e, alem disso, transmitindo todo conhecimento adquirido através do ensino.

O processo de individuação é isso: ouvir e atender o chamado da alma, o caminho que ela aponta, por mais que isso contradiga a verdade consciente, ou melhor, o desejo, que muitas vezes entendemos como a correta.

Deve ficar claro que isso não quer dizer resignação, apatia, não ir atrás de sonhos e ideais, resumidamente, passar o dia sentado no sofá, esperando “a alma” fazer seu trabalho. Muito pelo contrário. É como sempre falo para meus pacientes: você precisa fazer sua parte para que a vida faça a dela! E, quando obstáculos, frustrações invadem nosso caminho, e destroem nossos projetos e sonhos, aí sim é o momento de busca, para entender o significado e finalidade dessa experiência. Muitas vezes o aprendizado por trás é a desconstrução do ideal, perfeito e “redondinho” e a inevitável aceitação do real, com todos os “defeitos” que são inerentes... No final, depois que reconhecermos humildemente até onde podemos ir, a recompensa será inevitável. No caso da propaganda, o encontro simbolizado pelo carro.

Segue o link da propaganda:

http://www.youtube.com/watch?v=QF0V3z0Uwxk

Até mais,

Lilian Loureiro

9 de junho de 2009

Desmistificando a psicoterapia...

Infelizmente ainda são comuns alguns preconceitos arcaicos (visão de psicoterapia do século retrasado!) acerca do é psicologia, psicoterapia? Quem deve fazer? Porque deve fazer? Entre outros...

É uma pena que ainda existam os tabus do tipo: “terapia é para loucos”; “se tenho amigos para conversar, porque vou pagar para alguém me ouvir”, entre outras pérolas que escuto por ai.

Sempre que tenho oportunidade, gosto de conversar a esse respeito. É claro que com pessoas que mostram interesse. Gosto de ajudá-las a perceber seu ângulo de visão restrito acerca do que é psicoterapia e, assim ampliar sua visão, enxergando o tema de uma maneira mais abrangente e principalmente mais saudável. Alias, aproveitando o ensejo, ampliar o estreitamento de visão de vida é uma das principais funções da psicoterapia. Sem querer, a pessoa que se abre para enxergar o tema de uma maneira diferente, vivencia um pouco do que é o processo psicoterapêutico.

Psicoterapia não é apenas para quem está psiquicamente doente, com depressão grave, alucinando, pensando em suicídio, à beira de um colapso nervoso, com uma doença orgânica grave, em processo de separação, em luto, dentre muitas outras razões tão intensas e graves como essas.

Em minha experiência clínica, tenho notado que tais questões, vamos dizer, emergenciais, acabam sendo um estopim. Se apresentam como uma finalidade maior: levar a pessoa ao processo de autoconhecimento.

Em psicologia analítica entendemos que em qualquer sintoma, seja físico ou emocional, há uma finalidade. Nesse sentido, o sintoma, qualquer que seja, é visto de maneira prospectiva: aponta para algo maior, um caminho a ser explorado e conhecido. Ele está a serviço de algo maior que é a conexão com o aspecto desconhecido que existe dentro de nós.

Peço desculpas pela minha expressão coloquial, mas tem aquele ditado que diz ”a água precisa bater na bunda para que alguma coisa seja feita”. Muitas pessoas, só procuram a psicoterapia quando estão no seu limite, quando a água bateu e percebem “e agora”. A água pode ser qualquer uma das possibilidades que apresentei anteriormente.

É quase um presente quando recebo pacientes em meu consultório que dizem não ter nenhuma questão emergencial. O objetivo de estarem ali é para se conhecerem. É lindo observar a escolha corajosa de tanto se deparar com a autopercepção e reconhecimento de pontos fortes, talvez ainda despercebidos, assim como de pontos fracos.

Conforme mencionei na reflexão sobre “Resiliência”, dentre outras características, uma pessoa resiliente é aquela que, por escolha, olha, reconhece, acolhe e desenvolve seus pontos francos. Afinal, em bifurcações futuras, a percepção dos aspectos desfavoráveis da personalidade, pode fazer toda a diferença.

E, a psicoterapia, alem de acolher e amparar questões emergenciais está a serviço disso! Explorar aspectos desconhecidos da nossa personalidade que interferem negativamente nas nossas relações interpessoais, em nosso trabalho, enfim.

Diferente de um amigo que ouve nossas aflições, que dá conselhos pessoais sobre o problema, o psicólogo ouve e acolhe, para compreender junto com o paciente o que está acontecendo. O processo terapêutico, acontece pelo vínculo que se estabelece. Na relação estabelecida, não há manifestação de opiniões pessoas, pois isso instiga possíveis sensações de julgamento pelo paciente. O objetivo é entender a serviço do quê aquele problema está.

Lembremos da visão prospectiva que apresentei: em qualquer sintoma, questão, há uma finalidade intrínseca: um caminho sendo apontando e um convite para ser conhecido. E, um profissional capacitado, junto com você auxilia na identificação dessas pistas! Muitas vezes o fato de você reconhecer que tem 1 hora por semana ouvidos atentos e acolhedores para te ouvir, desencadeia um processo belíssimo: você mesmo se ouve! Você sai dos seus pensamentos e verbaliza suas emoções. Colocando-as para fora, se arejam e quando entram novamente em você, através dos seus ouvidos, a perspectiva muda!


Portanto, cabe destacar que psicólogos e amigos não são rivais, pelo contrário são aliados no processo de autoconhecimento. E, que, não é apenas em momentos tensos e difíceis que a psicoterapia é boa pedida. Sempre é, desde que esteja disposto a deparar-se com aspectos belos e sombrios de si mesmo.

Espero ter ajudado na desconstrução desses tabus. Aos interessados no assunto, que ficaram com “gostinho de quero mais”, indico a leitura do livro “Os desafios da psicoterapia”. Um livro sensacional, acessível ao publico leigo e que dá uma noção bastante realista do processo terapêutico.


Lilian Loureiro

21 de maio de 2009

Resiliência - A arte de superar os percalços e sair fortalecido por eles

Mais uma vez, foi convidada a participar do Programa Análise Direta. O tema da vez foi Resiliência. O convite foi resultado de uma sugestão que dei quando da entrevista sobre o Bullying. Na ocasião, uma telespectadora contou que havia sido vítima de bullying e de ter sofrido muito por conta disso. Teve depressão severa e chegou a ser internada. O que achei mais legal de seu relato, é que sua contribuição para o programa foi para contar que hoje, em detrimento dessa terrível experiência, tem em uma vida nova, está casada e feliz. O bullying não estragou sua vida a ponto de tolhir sua felicidade. Marcas, com certeza deixou.

Resiliência é exatamente isso, não apenas superar uma adversidade, mas sair fortalecido, transformado dela. Resiliência vem do latim resilio e significa voltar ao estado normal. É um termo usado na física e na biologia e que descreve a habilidade de um material, após ter sofrido uma forte pressão, voltar a seu estado normal. Todo material possue seu limite de quanta tensão suporta até começar a se deteriorar. Gosto do exemplo da mola, que após sofrer o máximo de pressão que pode suportar sem deteriorar, não só volta a seu estado normal, mas com energia extra: ela pula!

O termo resiliência foi adotado pelas ciências humanas para descrever a capacidade humana de responder de forma mais consistente aos desafios e dificuldades que a vida apresenta. É um estudo recente, começou a ser estudado em torno de 30 anos atrás, em campos de concentração. Na época se questionava: porque algumas pessoas suportavam mais do que outras a mesma terrível situação?

Descreve as forças psicológicas e biológicas exigidas para atravessar com sucesso as mudanças de nossas vidas. A pessoa resiliente é aquela que utiliza força, flexibilidade, inteligência e otimismo para enfrentar e superar circunstâncias desfavoráveis, como a telespectadora que falei no início.

A principal característica de uma pessoa resiliente é sua habilidade de fazer com que a pressão que sofre, trabalhe a seu favor, como a mola que ganha energia extra. Pessoas que usam todas suas habilidades, sejam as já conhececidas, ou as que descobrem na hora, para lidar com os pontos críticos da vida, momentos potencialmente perigosos. Dentre as características, as mais relevantes são:- criatividade; - capacidade de suportar dor; - percepção de si mesmo e do que está sendo vivenciado em determinada fase da vida; - independência de espírito; - auto-respeito; - habilidade de recuperar a auto-estima quando esta diminuiu ou foi temporariamente perdida; - capacidade de aprender; - habilidade de fazer e manter amizades; - liberdade na dependência dos outros, com limites da profundidade da nossa dependência; - uma perspectiva de vida que oferece uma filosofia vital, evolutiva, através da qual podemos interpretar todas as nossas experiências e extrair alguma medida de significado pessoal.

O que procurei deixar claro na entrevista, é que um dos fatores que dificultam a resiliencia é a polarização. Por exemplo, uma auto-estima baixa tem o mesmo efeito que vaidade alta demais, pois ambas as situações não permite a flexibilidade. E, a chave da personalidade resiliente é a flexibilidade: ser capaz de utilizar suas forças, ser lógico, organizado quando necessário e, ser capaz de funcionar de forma insensatamente ilógica e até abandonar projetos em andamentos, para assim descobrir possibilidades inesperadas quando assim for preciso.

Alem disso, procurei frisar que resiliência é diferente de sobrevivência, diferente de invulnerabilidade e diferente de enfrentamento. Afinal, resiliência não é apenas uma simples resposta à adversidade, mas sim a capacidade humana universal de superar as adversidades da vida e de ser fortalecido por elas. É parte de um processo evolutivo e pode ser promovida desde o nascimento. Portanto, deve ser entendida como um processo. Todos nos nascemos com esse potencial que poderá ser mais ou menos desenvolvido, dependendo de quanta atenção e interesse colocarmos nele. Se, diante de um problema uma pessoa tem a crença de que só lhe resta lamentar a infeliz fatalidade, uma excelente oportunidade de desenvolver esse potencial está sendo desperdiçada...

Existem fatores de resiliência, comportamentos resilientes e resultados resilientes. Pessoas com maior resiliencia têm motivação para buscar ajuda. Sabem que tem problemas e buscam alguém para ajudá-las. É claro que podemos cultivar e exercitar a resiliência. Mas, nenhum de nós é perfeito no sentido de termos todas as características descritas acima, bem desenvolvidas. Somos sempre mais ou menos um pouco de cada coisa.

É justamente nos períodos de forte estresse que temos a oportunidade única de desenvolver ou reforçar as qualidades de resiliência, que não são particularmente nosso ponto forte. Crônica “A pipoca” de Rubem Alves ilustra muito bem isso.

É importante ressaltar que resiliencia não será sempre a mesma, presente e interminável. Nosso nível de resistência poderá oscilar ao longo do tempo. Nenhum componente da resiliencia é parte estável da personalidade. Algumas vezes, por exemplo, somos mais corajosos do que outras vezes. O importante é você avaliar periodicamente suas forças e limitações. Por escolha, sempre que possível desenvolva suas habilidades que lhe pareçam mais fracas, de forma que possa melhorar suas possibilidades de lidar com bifurcações futuras. Afinal, infelizmente não podemos prever sempre que tipos de capacidades e habilidades iremos precisar para enfrentar rupturas futuras. Existem pessoas que ultrapassam e continuam a saltar por sobre os altos riscos e vulnerabilidades que enfrentam, que nunca deixam de ter esperança, que se agarram a seus ideais, adquirindo uma filosofia de vida ou uma perspectiva religiosa e que conseguem se desenvolver como seres resilientes.
Fé na vida dá força e suporte para viver a vida com significado, para agarrar-se aos próprios sonhos. Essas são as marcas de pessoas resilientes. Enfim, foi essa a mensagem que procurei deixar e que quis compartilhar em meu blog...

Lilian Loureiro

11 de maio de 2009

Conflitos, será que são tão ruins assim...

INTRODUÇÃO

Quando comecei a escrever esta reflexão, muitos aspectos conflitivos do tema, por mais paradoxo que isso seja, bombardearam minha mente. Eis o que acontece quando o conflito é invocado...

Num primeiro momento, fiquei confusa, não sabia para qual direção ir. Cheguei até em pensar em desistir, por ser complicado demais...

Diversas dimensões do tema foram se apresentando, de forma misturada e bastante confusa. Passada a angustia inicial, permiti que o caos se instalasse. Dei vazão ao surto de idéias e aceitei que as diversas dimensões da questão se apresentassem... Como sempre brinco, parafraseando Elizabeth Gilbert, convidei as várias facetas do tema para tomar um café.

E foi muito bom, proveitoso. Rendeu muito mais do que imaginava. Se ficasse presa na idéia original, iria perder sacadas importantes sobre o conflito em si, como tema. A principal sacada foi exatamente o que acabei fazendo: às vezes a única saída possível diante de um conflito é assumi-lo, dar vazão, pois só assim a solução se apresenta. Os meios, nesse caso, justificaram o fim. E, agora que "a coisa" já está mais clara, ordenada, cheguei à conclusão de que a melhor forma de refletir sobre o tema é dividindo-o por partes. Na primeira parte, abordarei os aspectos interpessoais do conflito, quando ele ocorre entre diferentes indivíduos, com diferentes pontos de vista. Na segunda parte, discorrerei sobre a dimensão intrapsíquica do conflito, como o que aconteceu comigo, quando tive a idéia de escrever dessa reflexão.

Parte 1 - Conflito Interpessoal

É fato, em qualquer fase de qualquer relacionamento, seja ele de amizade, casamento, namoro, com os pais: conflitos são inevitáveis. Infalivelmente haverá momentos em que pontos de vistas, opiniões, escolhas serão divergentes e daí, o conflito será o desfecho certo.

Sempre digo aos meus pacientes, que temem discussão e conflito, para não temerem e sim enfrentarem. Afinal, é um engano muito comum associarmos discussão e conflito com briga e desentendimento. De fato, uma discussão, dependendo da forma como é conduzida pode virar uma briga feia e o conflito, em desentendimento. No entanto, isso não é uma equação fechada e pré-determinada, esse fim é uma das possibilidades, mas não a única. A chance disto acontecer será maior, quanto mais inflexível estivermos, firmes em nossa opinião, não dispostos a ouvir, ao menos, (entender e aceitar é outra história) a opinião do outro. Assim como a moeda que tem os dois lados, cara e coroa, situações de conflitos também têm.

Num dos lados, está o dono da razão e do outro, o que acha que não vale à pena discutir. Casamento perfeito, eu diria, caso permanecesse sempre assim... No entanto, o feliz para sempre nunca dura para sempre, em alguns casos... Por exemplo, quando o lado que acha que não vale a pena discutir acorda do sono profundo da acomodação e começa a questionar, o laço da união perfeita começa a se desfazer, e daí o conflito inevitável se instala.

Em casos como esse, o dono da razão fica perplexo, enlouquecido, enfurecido, culpando quem estiver na sua frente o infeliz destino. Pensado nesse lado da moeda, me parece que o que está por trás dessa dificuldade em ouvir o que o outro tem para nos falar, é receio de perder. E quando um precisa perder para o outro ganhar, há disputa pelo poder. É como se, com a manifestação do outro, nosso ponto de vista passasse a ser relativo e menos importante. Isso acontece quando colocamos na “nossa verdade”, todo nosso poder, em uma única idéia. É como se uma dada visão justificasse e ancorasse nosso ser. Daí, quando alguém rebate isso, é como se o chão no qual nosso eu está ancorado se desfizesse. Portanto, o comportamento esperado é brigar com unhas e dentes, não aceitando nada além da nossa absoluta verdade.

Rubem Alves, autor que tanto gosto e admiro tem uma crônica fantástica a esse respeito e que ilustra muito bem o que quero dizer: Tênis X Frescobol. Nesta crônica, Rubem apresenta metaforicamente dois tipos de relação baseados nesses jogos. Diferencia os jogos pela necessidade de um lado vencer, ganhar em detrimento e à custa do outro. Segundo ele, esse é o jogo de tênis, no qual um jogador ganha, se o outro falhar e perder. Há a intenção de levar o outro a falha, pois só assim a vitória estará garantida.

No caso do frescobol é outra história. Quanto mais tempo a bola, que no caso, Rubem associa às idéias, questões, temas, ficar em jogo entre ir e vir, maior será a satisfação dos jogadores e, consequentemente, a sensação de vitória em ambos estará presente. Se um jogador erra, o outro tentará retomar o jogo para manter o ir e vir. Esse é o lado saudável da relação: entre ires e vires ambos os lados são contemplados e, se um desvia, o outro o ajuda a entrar no jogo novamente, no qual, ambos ganham. Para mim, o frescobol ilustra uma forma muito dinâmica e saudável de pensar em como administrar os conflitos, aceitando suas polaridades e não entrando na oposição inerente a elas.

Parte 2 - Conflito Intrapsiquico

O modelo de jogo, proposto pelo Tênis nos permitir ampliar a reflexão e entrar na dimensão intrapsíquica do conflito. Diante da necessidade de só ganhar, temos que olhar e ver se está tudo nos conformes, não no outro, mas em nós mesmos!

Como lidar com a possibilidade de estarmos errados com nossa visão unilateral é inconcebível, portanto, no caso de uma discussão, o melhor é nem ouvir mesmo...

Diante disso, o caminho que muitas vezes se apresenta como o mais fácil, na visão de alguns, é o de fazer de conta que nada acontece. Esse caminho é ilusório, pois alimenta justamente a falsa ilusão de que está tudo nos conforme e que os problemas são os outros... E, sinceramente, para mim esse é o pior tipo de evitação de conflito: o conflito que não está fora, na nossa relação com as outros, mas o que está dentro!

Uma atitude como essa reflete justamente a evitação da verdade absoluta, mas não a nossa, que lutamos com unhas e dentes para mantê-la imaculada, mas a verdade da vida: muitas vezes, para ganhar é preciso perder! No jogo de frescobol para ser prazeroso para ambas as partes, é nosso egoismo que precisa perder! Se o jogo durou horas não é porque somos feras, "os bons", é porque a dupla deu certo. Sozinho, não dá para jogar. Esse jogo tem outro nome, chama-se squash.

Precisamos olhar para nosso narcisismo inerente do humano. Mas quando a situaçã está cômoda e confortável, porque o faríamos? Muitas vezes é somente quando uma discussão ocoorre e quando o calado retoma a voz e começa a questionar, que o inevitável acontece. Somos forçados a sair do ninho cômodo, abandonar nossa visão de donos da verdade e aceitar nossa visão parcial.

Desta forma, uma reflexão acaba sendo inevitável, seja gostando disso ou não. O que será que está acontecendo? Num primeiro momento é comum culpar o outro, alegando que algo está errado com ele, afinal que atitude é essa que nunca vi? Muitos permanecem aí, enganando a si mesmos, pois não aceitam o prório conflito: Será que estou certo mesmo? Será que a opinião do outro também não tem um pouco de verdade?

Tal reflexão, representa a oportunidade de assumir o conflito mais doloroso, que é o interno.

E, justamente quando isso acontece é que temos possibilidade de refletir porque calcamos nosso chão em uma visão tão restrita da realidade. E daí, tal como vivenciei quando comecei a escrever essa reflexão, uma enxurrada de informação poderá bombardear nossa mente. Ao ouvir a opinião do outro e aceitar a bola que ele manda, sem o medo que isso represente que ele queira ganhar sobre nós, podemos abrir portas e janelas em nossa mente, tendo a oportunidades de pensar em coisas, que outra maneira, não seriam possíveis. É enxergar possibilidades onde antes existia falsas certezas.

Se conseguirmos suportar a angustia e não cairmos na tentação de culpar os outros pelo infeliz destino que conflito externo apresentou, teremos uma oportunidade maravilhosa de amadurecermos, ao termos uma visão mais real e ampla da situação. Pois, o mais doído dessa história toda é aceitar que nosso umbigo é apenas uma parte e não o centro como imaginávamos.

E aí é que iremos perceber o quanto os conflitos são importantes e servem a propósito maior: propiciar maneiras de nos conhecermos...

Lilian Loureiro

21 de abril de 2009

Um discurso inspirador...

Quem ainda não viu, vale a pena reservar 15 minutos e assistir a um vídeo realmente inspirador!

O vídeo indicado conta brevemente um pouco da história de um dos homens mais poderosos da atualidade. Contudo, vale enfatizar que o mais legal desse vídeo é que, apesar da influência e referência desse homem, o vídeo mostra sua dimensão humana, repleta de limitações, dificuldades e interpéries que a vida impõe e, o mais importante, como, em detrimento disso, esse homem conseguiu superar, crescer e se tornar quem é hoje! Para mim, é um exemplo de resiliencia fantástico.

O vídeo em questão, refere-se ao discurso de Steve Jobs como paranifo da turma de 2005 da Universidade de Standford. Para quem não o conhece, ele é o criador da Apple, empresa criadora do Ipods e Iphone. Seu discurso é maravilhoso, no qual relata as adversidades que passou, desde ser rejeitado, depois acolhido, ter abandonado os estudos para estudar o que mais lhe interessada. Montar sua empresa, para depois ser demitido dela, descobrir diagnóstico de câncer, e continuar crente em sua vida.

Para aqueles que já assistiram, vale a pena ver de novo...

Segue o link:

Parte 1 – http://www.youtube.com/watch?v=yplX3pYWlPo

Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=ksoo-G_YB2o

Lilian Loureiro

8 de abril de 2009

Bullying - Falando sobre preconceito...

Semana passada fui convidada para participar mais uma vez do programa Análise Crítica da RIT TV. O tema, na ocasião foi Bullying. Lembrei-me de um trabalho apresentado por colegas no mestrado, em uma disciplina sobre desenvolvimento humano. Tentei entrar em contato para levantar o material, mas o tempo que dispunha não foi suficiente.

Precisei arregaçar as mangas e partir para o “famoso levantamento bibliográfico”. Quem algum dia já teve experiência com pesquisa, sabe do que estou falando... Mas, desta vez não foi um trabalho maçante, foi até que gostoso. Encontrei materiais dos mais diversos, desde apresentações de aula, campanhas de escola contra a prática do bullying, até artigos científicos de revistas conceituadas.

Mas afinal, o que é bullying? Bullying é o termo adotado para designar um tipo particular de violência, que é a intimidação. A palavra deriva do verbo em inglês bully que significa intimidar, mas que não recebe tradução. Esse termo foi adotado na década de 70 na Noruega e rapidamente foi adotado por outros países também. No Brasil o estudo desse tipo de violência, com esse nome, é mais recente. A partir da década de 80 que o tema começou a ser estudado.

No bullying a relação é a três: agressor, vítima e platéia. Para haver bullying, essa equação precisa estar presente. As características deste tipo particular de violência são: relação desigual de poder, repetição intencional de atitudes violentas, seja físicas, psíquicas ou emocionais, na qual a vitima não tem condições de se defender. Geralmente a vítima possue determinada característica que a faz alvo da agressão. Estudos mostram que estrangeiros, alunos obesos, com baixa estatura, homossexuais são alvos recorrentes.

O que me chamou a atenção é que a maior parte do material que encontrei, principalmente os educativos, vê o bullying como algo que precisa ser combatido, eliminado, sendo que o grande vilão da historia é o agressor. Apenas um artigo cientifico problematizou a questão mais a fundo.

O que procurei acrescentar na entrevista é o aspecto sintomático do bullying. Se ele está ocorrendo, é porque algo está acontecendo que precisa ser olhado e entendido. Fiz um paralelo com a febre. Quando estamos com febre é porque nosso organismo está reagindo a algo. Não adianta nada simplesmente tomar um antitérmico e não investigar o que está causando a febre. Na qualidade de sintoma ela pode vista apenas como um fim a ser eliminado. Mas, sua manifestação não deve ser apenas eliminada, ela está ali para mostrar que alguma inflamação está ocorrendo, infecção, enfim. O bullying deve ser visto e entendido da mesma forma. Simplesmente punir o agressor ou proteger a vítima não irá resolver o problema. Pode ter efeito a curto prazo, como um antitérmico que afasta a febre por um momento. Mas, se não investigarmos o que está por trás e darmos a devida atenção, o quadro pode piorar e muito.

O agressor, muitos vezes é ou já foi vítima de alguma situação e/ou agressão em outro contexto. Crianças e jovens que usam da agressão e do abuso de poder, conscientemente ou não, estão mostrando que precisam ser vistos, olhados. E a agressão pode ser a única maneira de conseguirem isso. Se os colocarmos como algoz talvez não consigam manifestar o que estão tentando.

O mesmo ocorre com a vítima. Às vezes pode-se ter uma atitude super protetora não permitindo que ela encontre em si recursos para enfrentar a situação. Desta forma, ficará sempre presa ao padrão de vítima indefesa. Outras vezes, pode-se fazer de conta que nada acontece. Mesmo que a criança ou jovem manifeste medo, por exemplo, de ir para a escola, que volte para casa com coisas faltando, roupa e material rasgado, é como se nada tivesse acontecendo. Ou às vezes, pode-se até brigar pela falta de zelo com o material e falta de interesse em estudar. Para a vítima, que se sente acuada, sem recursos para enfrentar a situação e, na maioria das vezes, muito envergonhada por conta disso, não ser olhada e acolhida, o mesmo efeito da super proteção é produzido: cristalização desse padrão.
E, não é raro, que mais tarde, quando a vítima se percebe um pouco melhor, acabe compensado anos de solidão e desprezo, fazendo com os outros o que sofria calada e aí, a vítima se torna o novo agressor.

Portanto, no bullying vemos os dois lados da mesma moeda: o não ser olhado e entendido em sua singularidade.

Na reportagem que participei, passaram uma matéria excelente de uma escola que encontrou a maneira mais saudável de cuidar do tema: ao invés de apenas punir e proteger, de dar o antitérmico, percebeu que algo estava acontecendo e acolheu e incorporou o tema bullying nas aulas como algo a ser estudado e debatido. Criando-se desta forma, um espaço onde as vítimas tiveram sua voz e os agressores o seu espaço de serem olhados de uma forma mais realista.
Adorei participar desta entrevista, contribuir para o tema. Assim como adorei perceber que, apesar de fazer parte de uma minoria, a escola da matéria encontrou uma saída criativa para lidar com o problema, que não o convencional cortar o mal pela raiz. E por isso, resolvi compartilhar essa experiência.
Lilian Loureiro

Ter ou não ter um blog, eis a questão...

Há algum tempo tenho pensado em publicar um blog e assim compartilhar reflexões, discutir alguns temas. No entanto, sempre resisti.

Não tenho clareza do porque dessa resistência. Por um lado não sou muito adepta à exposição, o que seria uma justificativa perfeita. Contudo, tive uma experiência sensacional em compartilhar ideias via internet.

Durante meu aprimoramento clínico, tive a experiência de publicar artigos no Vya Estelar, uma revista eletrônica da UOL. Foi uma experiência sensacional.

Naquela ocasião, o trabalho era em grupo. Os artigos eram produzidos em co-autoria. A visibilidade foi grande, tanto é que a partir de uma publicação, recebemos um convite de uma editora que adorou um dos artigos e nos convidou para escrevermos um livro. De fato escrevemos!

A coluna no Vya Estelar foi uma experiência ótima, excelente enquanto durou. Mas, toda burocracia em termos de prazos, linguagem, cansava um pouco. De forma que optamos por ficar com os louros da relação e em finalizá-la antes que começasse a deteriorar. Foi um choque para muitos, afinal, como perder uma oportunidade como essa?

Essa é a beleza da escolha: assumir as consequências. Ao optarmos por finalizar nossa coluna, um ciclo se encerrou e outras oportunidades surgiram. E é assim que a vida caminha: precisamos estar sempre alertas aos sinais de partir em retirada, assim como de empreender novas jornadas.

Diante da lembrança dessa feliz experiência, refleti: porque não voltar a escrever e publicar na internet? Não mais num site de grande visibilidade, até porque a proposta não é esta, mas ter um espaço onde as ideais possam concretizar-se em palavras, palavras em frases e frases em textos.

E eis a vantagem de um blog: não tem prazo, você escreve quando quer! Pode ter épocas em que suas reflexões estarão a mil, de forma que seu blog será alimentado com muita frequência. Mas, quando o período de vacas magras fizer-se presente, no problems. Como não existe o comprometimento de, por exemplo, quinzenalmente publicar um artigo, você pode ser fiel ao seu processo criativo e acatar o momento de reclusão.

Paralela a essa sacada, tive a oportunidade de conhecer blogs de colegas, seus textos, reflexões, sugestões e isso foi me cativando cada vez mais. Por fim, decidi ter sim meu blog.

Nele pretendo compartilhar reflexões sobre psicologia, autoconhecimento (processo de individuação), relacionamentos, qualidade de vida, hipermodernidade, enfim sobre meus temas prediletos de estudo e reflexão!

Lilian Loureiro